A «neutralidade passiva» da UNITA na Guerra Civil MPLA-FNLA no pós-Alvor e o sucessivo «erro estratégico» de Jonas Savimbi (2/2)


A histórica rivalidade entre a FNLA e o MPLA re-emergiu imediatamente a seguir a assinatura do Acordo de Alvor e conduziu ao que se designou por «Primeira Guerra Civil» pelo controlo de Luanda entre aqueles dois Movimentos. Nesta fase, a posição da UNITA era de relativa neutralidade, que convenceu o MPLA a tentar um acordo político consigo. Vejamos, em síntese, até onde se chegou e qual terá sido o erro estratégico cometido pela UNITA no cacimbo de 1975 (veja aqui a parte 1/2 do texto).


A Guerra Civil entre a FNLA e o MPLA. A «neutralidade passiva» da UNITA e a procura de aliança do MPLA com a UNITA

A Primeira Guerra Civil em Angola, entre os movimentos nacionalistas, aconteceu no imediato da assinatura do Acordo de Alvor e teve como beligerantes a FNLA e o MPLA (ordem aleatória). O seu objectivo consistia na obtenção da supremacia militar na capital do território como elemento de barganha política e indução ao reconhecimento diplomático da república a ser fundada, no ano da proclamação da independência nacional.

Tiago Moreira de Sá (2011) conta que “(…) os primeiros confrontos após o Alvor começaram 11 dias depois do encontro do Algarve e ainda antes da tomada de posse do governo provisório. A 25 de Janeiro, a FNLA atacou a estação pública da rádio, destruindo-a e raptando o seu subdirector, um membro do MPLA” (in Os Estados Unidos e a descolonização de Angola, p.151). Sucessivamente, já em Fevereiro “(…) no dia 12 as FAPLA atacaram na capital as instalações de Daniel Chipenda; em resposta, esta antiga facção do movimento de Agostinho Neto juntou-se definitivamente à FNLA” (ivi, p.154).

Esses ataques e contra-ataques repetiram-se com maior intensidade em Março, dentre os quais se assinalam pelo menos dois: um no dia 23 e outro no dia 24. Isto é, “no dia 23 a FNLA capturou no musseque um grupo de soldados e apoiantes de Agostinho Neto; um outro carro carregado de soldados do MPLA atacou a sede principal da FNLA com armas semi-automáticas matando quatro pessoas; (…) na manhã do dia 24 de Março o MPLA destruiu várias sedes da FNLA” (ivi, p. 163).

Não se tratando aqui de elencar todos os episódios de confrontos mortíferos envolendo o MPLA e a FNLA, nem tampouco imputar a quem coube a responsabilidade histórica da sua eclosão, tais confrontos, como se sabe, continuarão até a expulsão da FNLA e a saída quase voluntária da UNITA da capital no mês de Agosto, deslocando, com isto, o conflito para zonas fronteiriças de Luanda, nomeadamente, o Zaire, Bengo e Kuanza Sul, com a FNLA procurando reocupar Luanda e o MPLA rechando todas as possibilidades de isto acontecer.

Nessa fase, e como ao longo dos 14 anos da Guerra Anti-colonial, a FNLA (e o seu braço armado, o ELNA), era o movimento que possuía mais efectivos e maior força lental, seguido pelo MPLA e o seu braço armado, as FAPLA. A UNITA e as FALA, seu braço armado, era a terceira força militar, superior apenas aos guerrilheiros de Daniel Chipenda. De facto, Tiago Moreira de Sá (2011), estimava que “De acordo com as informações (…), os três movimentos angolanos tinham as seguintes tropas: FNLA, 21 mil; MPLA, dez mil; UNITA, oito mil, Daniel Chipenda, dois mil; FLEC, 1700” (op.cit., p.143).

No entanto, Jonas Savimbi era o único entre os três líderes com a formação superior em Ciência Política, além de treinamento militar em tácticas de guerrilha, e em muitos telegramas reservados (ora desclassificados) enviados pelos vários funcionários consulares em Luanda para o exterior, descreviam-no quanto fosse o mais «inteligente e hábil» entre os demais líderes angolanos.

Supondo que o líder da UNITA fosse consciente desse trunfo junto de ambientes políticos e diplomáticos portugueses, africanos e internacionais, pelo menos, dois factores podem ter contribuido a observação da «neutralidade passiva» da UNITA durante a Primiera Guerra Civil entre a FNLA e o MPLA: o primeiro, a consciência da inferioridade da sua força militar tanto no país, quanto e, sobretudo, em Luanda, e o segundo, a convicção de possuir o maior capital político se comparado aos putativos eleitores da FNLA e do MPLA.

Dito de outro modo, a «neutralidade passiva» da UNITA pode ter sido derivada do calculismo realístico da sua classe dirigente, que apostava no êxito positivo dos resultados das eleições de Outubro de 1975 para a Assembleia Constituinte, a formação do governo e, uma vez declarada a independência de Angola, fundar uma nova república por si guiada. Esse calculismo pode ter estado baseado no facto de a região «natural» da UNITA possuir, como vimos, cerca de 3,5 dos 6 milhões de angolanos, quase 4 em cada 6 eleitores prováveis viria do corredor Centro-sul de Angola.

As vozes de um provável acordo entre o MPLA e a UNITA eram cada vez mais insistentes na Luanda de então, sobretudo, após o fracasso de acordo de cessar-fogo de 28 de Março de 1975 entre a FNLA e o MPLA. A própria UNITA, quando retirou em Agosto de 1975 os seus representantes do que sobrara do Colégio Presidencial, deixou aí José N’dele como seu interlocutor com o MPLA e com as autoridades locais do MFA e da Junta Governativa.

No encontro mantido entre Agostinho Neto e o representante consular italiano em Luanda, Salvatore Zotta, na segunda metade de Agosto de 1975, o diplomata descreveu em telegrama ora desclassificado que Neto lhe teria dito a “(…) refutação total do acordo com a FNLA e a abertura de um acordo político com a UNITA” (fonte: FG, APCI, 1975, 19/8/1975). Mas esse encontro é posterior ao Acordo de Nakuru, de 22 de Junho, mediado, novamente, pelo Presidente Jomo Kenyatta, e assinado pelos três líderes angolanos, comprometendo-se a cessar as hostilidades e a unidade nacional para a independência nacional (cfr. aqui o testemunho em vídeo do momento da assinatura do acordo de Nakuru e o compromisso assumido para a sua implementação).

Embora o Acordo de Nakuru tenha sido trilateral (FNLA-MPLA-UNITA), na verdade, foi mais destinado ao cessar de hostilidades entre os dois primeiros, envolvidos directa e intensamente na Primeira Guerra Civil, cuja presença da UNITA aí foi apenas uma ulterior confirmação da sua legitimidade no contexto pan-africano como um dos três movimentos, os únicos representantes do povo angolano.

Contudo, o único acordo envolvendo directa e unicamente o MPLA e a UNITA, após o colapso de Nakuru, foi o de Lisboa, rubricado a 29 de Agosto de 1975 por Lopo de Nascimento (MPLA) e José N’dele (UNITA), sob a mediação de Costa Gomes. Pelo menos, três notas verbais enviados pelos consulados dos EUA em Lisboa e em Luanda confirmam as negociações e a assinatura do primeiro documento por aqueles representantes. Na primeira nota verbal, do dia 30 de Agosto, o funcionário consular em Luanda relatou que,

A imprensa de Luanda publicou notícias sobre um Acordo de cessar-fogo entre o MPLA e a UNITA após negociações em Lisboa. De acordo com as notícias, o acordo prevê um cessar-fogo imediato e uma troca de prisioneiros. O Alto Comissário interino confirmou que tinha sido alcançado um acordo, mas advertiu que o verdadeiro teste ainda está por vir (cfr. in https://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=37535&dt=2476&dl=1345, traduzido em português pelo autor).

Na segunda nota, enviada pelo funcionário consular dos EUA em Lisboa, no dia 2 de Setembro, pode ler-se que,

Representantes do MPLA e da UNITA em Lisboa concordam com o cessar-fogo apesar das recentes indicações de que a UNITA estava a planear um ataque às tropas do MPLA, os representantes de ambos os grupos em Lisboa concordaram com um cessar-fogo. O acordo está sujeito à ratificação pela liderança dos movimentos em Angola (cfr. in https://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=323326&dt=2476&dl=1345, traduzido em português pelo autor).

Na terceira nota, enviada pelo funcionário consular dos EUA em Luanda, no dia 2 de Setembro, informou que,

Após o seu regresso a Luanda das negociações em Lisboa com representantes da UNITA, o membro do Conselho Presidencial do MPLA, Lopo do Nascimento, limitou-se a dizer que as reuniões em Portugal tinham como objetivo encontrar um terreno comum sob o qual basear um acordo de cessar-fogo e cooperação. Afirmou que as propostas são de uso oficial limitado antes de qualquer acção poder ser tomada (cfr. in https://aad.archives.gov/aad/createpdf?rid=317765&dt=2476&dl=1345, traduzido em português pelo autor).

O erro estratégico cometido pela UNITA durante a Guerra Civil MPLA-FNLA

Provavelmente, ou no dia 3 ou 4 de Agosto de 1975, o líder da UNITA leu na emissora da rádio um comunicado, em que dissera, dentre outros, a predisposição do seu movimento em “(…) abandonar a posição de neutralidade observada até aqui, com vista a  intervir activamente na luta em curso” (fonte: FG. APCI, 1975, 5/8/1975). No mesmo comunicado, o líder da UNITA condenava a intenção da «internacionalização do conflito angolano».

Porém, o que ele terá ometido no mesmo comunicado é que, com a aprovação da Operação Secreta IAFEATURE pela Administração Ford, em Julho de 1975, e a recepção tanto pela FNLA, quanto pela UNITA de treinamento militar, de armamento e de financiamento, num valor total estimado em 32 milhões de USD, a UNITA prestava-se, ela também, a contribuir para a internacionalização do conflito angolano, a par dos ingentes equipamentos militares soviéticos enviados ao MPLA e a presença dos primeiros efectivos cubanos nas fileiras das FAPLA.

Compreender-se-ia que a FNLA, condicionada pelos diktats de Kinshasa, continuasse a obter, agora de forma maciça, o apoio dos EUA para conter a chegada do MPLA ao poder, mesmo se em muitos ambientes diplomáticos internacionais se considerasse que a causa estivesse já perdida em favor de Agostinho Neto, que passou a ser a força dominante em prejuízo do seu principal rival, a FNLA. Ora, à distância de cinco décadas, questionar-se-ia a razão da UNITA e do seu líder, considerado como o mais «inteligente e hábil», terem acedido àquele apoio e, sobretudo, se dominavam os meandros da Operação IAFEATURE, ou, mesmo sabendo da sua natureza, tivessem, mesmo assim, decidido em ser instrumentos de uma rivalidade geopolítica entre os EUA e a URSS, no ambiente da Guerra Fria.

Em todo esse emaranhado, a determinação do provável «erro estratégico» da UNITA e de Jonas Savimbi pode deduzir-se da resposta hipotética à seguinte questão fundamental, isto é, tendo recebido, já por três ocasiões, entre 18 de Julho e 20 de Agosto de 1975, o apoio financeiro e militar no âmbito daquela operação secreta, por quê a UNITA procurou, ainda assim, um acordo de cessar-fogo com o MPLA, tendo inclusive assinado um texto preliminar em Lisboa, no dia 29 de Agosto de 1975, sendo que a pretensão da IAFEATURE era a derrota militar do MPLA?

A hipotética resposta a essa questão fundamental, pode ser que a liderança da UNITA não fosse inicial e cabalmente a corrente dos condicionalismos estratégicos da IAFEATURE, tendo sido ela uma operação secreta inclusive para os próprios congressistas estado-unidenses e muitos aliados dos EUA pelo mundo, e que, tendo, posterior e finalmente, percebido a sua instrumentalização, procurasse, in extremis, um acordo com o MPLA. Se tal hipótese fosse verdadeira, então, esse pode ter sido o pior erro estratégico de Jonas Savimbi e da UNITA naquele período, pois teriam obliterado a sua vantagem estratégico-eleitoral, eventualmente um arranjo de coabitação política com o MPLA, para enveredar numa proxy war inserida numa operação secreta, que, muito provavelmente, não soubessem a sua existência e metas profundas.

De facto, face ao que podemos considerar como «Tentativa de recuo da UNITA» dos apoios instrumentais da Administração Ford, através do pré-acordo de Lisboa, de 29 de Agosto de 1975, John Stockwell, o responsável da CIA pela Operação IAFEATURE em Angola, citado por Tiago M. de Sá (2011), dizia que Jonas Savimbi ‘(…) mandou enviados sondarem o MPLA para uma solução negociada. (…) Não queríamos aliados moles na nossa guerra contra o MPLA’ (De Sá, 2011, p.240 apud Stockwell, 1978, p. 193).

O que o operativo da IAFEATURE em Angola considerava “aliados moles”, para a UNITA poderia ter sido um ponto de recalibragem, uma espécie de mea-culpa, para o regresso ao tão ventilado acordo político com o MPLA e, assim, esperar numa eleição que lhe atribuísse uma victória eleitoral esmagadora ou parcial e um futuro governo com o MPLA.

Mas, tal recuo recalibrado, em tais condições geopolíticas, era possível?

Issau Agostinho

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