Da economia de títulos à economia de competências: o imperativo da formação técnica em Angola


O crescimento de uma Nação não se mede pela acumulação de títulos académicos, mas sim pela capacidade do seu tecido produtivo de inovar, transformar e gerar valor. Por que é imperativo passar da economia de títulos à economia de competências em Angola?


No nosso contexto assistimos a um paradoxo: um elevado número de diplomados em áreas de ciências sociais, frequentemente subaproveitados, enquanto as indústrias de transformação e o sector produtivo clamam por mão-de-obra especializada e qualificada. Este desequilíbrio é a prova de que a nossa aposta educacional não está alinhada com a nossa ambição económica.

Se o objectivo é a diversificação e a soberania económica, o caminho não poderá ser pavimentado apenas por teóricos e analistas. É imperativo que Angola reconheça o valor estratégico do Técnico Profissional (o electricista, soldador, operador de máquinas, especialista em manutenção industrial). São estes profissionais que fundamentalmente:

  • Trabalham na base da cadeia de valor, assegurando a operacionalidade e a eficiência das fábricas;
  • Alavancam as indústrias de transformação, que são a verdadeira fonte de riqueza e de criação de empregos sustentáveis;
  • Preenchem lacunas essenciais que, hoje, somos forçados a colmatar com a dispendiosa e insustentável importação de técnicos estrangeiros.

Um País com ambições de crescimento não pode continuar a investir de forma desproporcional em instituições voltadas para as ciências sociais, enquanto as escolas técnico-profissionais definham. A diversificação exige uma mudança radical no investimento em educação, passar de uma economia de títulos para uma economia de competências.

Para que a formação técnica se torne o verdadeiro hub de crescimento angolano, são necessárias reformas sérias e imediatas, com prioridade orçamental:

  • As escolas secundárias deveriam ser transformadas em grandes pólos de ensino técnico, garantindo que o estudante, ao concluir o ciclo, possua uma competência profissional concreta;
  • A monitorização e a orientação vocacional deveriam começar na escola de base, incentivando jovens adolescentes a pensarem em carreiras técnicas;
  • O INEFOP e outros centros de formação deveriam ser reestruturados para operar sob as mais rigorosas exigências internacionais.

O objectivo não deveria ser apenas o de dar formação, mas sim certificar técnicos de nível mundial. Para que seja efectivado, é crucial criar-se mecanismos para enviar estudantes e formadores para grandes escolas técnicas internacionais,  garantindo a absorção de know-how de ponta, bem como transformar as escolas técnicas como parceiros directos das empresas. E isto requer moldar os curricula às necessidades reais do mercado de trabalho. Este elo é a garantia de que os técnicos formados serão imediatamente empregáveis.

Enfim, a pergunta crucial para o investimento público já não é «Quantos Doutores formámos?», mas sim «Quantas indústrias os nossos Técnicos conseguem manter a funcionar?».

O desenvolvimento não se implora; constrói-se. E só teremos êxito quando as grandes escolas técnicas tiverem o peso e o prestígio que hoje conferimos às faculdades sociais. É uma questão de prioridade e de sobrevivência económica do nosso país.

Adão Maria

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