O ataque em Orlando e a incidência na campanha eleitoral nos EUA

Em Orlando, Florida, os estado-unidenses e o mundo foram mais uma vez chocados pela morte de quatro dezenas de pessoas assissanidas a sangue frio por um outro estado-unidense. Em uma América que vive umas das campanhas eleitorais mais polémicas da sua história, pelas declarações do eventual candidato GOP, como perceber o «factor Orlando» na política e na campanha eleitoral 2016?


A história de mass shooting (assassinatos em massa) nos EUA – entendida como um incidente com armas em que pelo menos 4 ou mais pessoas são mortas ou feridas, incluindo o assassino – não é recente.

Segundo dados FBI, os EUA, que contam 5% da população mundial, é a sede dos 31% de mass shootings verificados no mundo desde 1966, ou seja, cerca de 2/3 dos mass shootings mundiais. O Gun Violence Arquive registrou, só nos primeiros 164 dias deste ano, 136 mass shootings nos EUA, que vitimaram 212 pessoas e feriram outras 558. Depois de Virginia, em 2007, em que 32 pessoas foram massacradas, o ataque em Orlando é agora o que mais vitímas mortais fez na história do país.

No geral, se considerarmos que 1,139 indivíduos perderam a vida em 1,002 mass shootings nos últimos 1,262 dias, isto perfaz uma média de 1,1 pessoas mortas por dia vitíma destes incidentes nos EUA.

Os EUA, sede de 2/3 de mass shootings mundiais, curiosamente a sua população civil possue um total de 270 milhões de armas de fogo, uma cifra sufiente para armar as populações da Nigéria, França e Canadá, juntas, o que faz de si o primeiro país do mundo em termos de armas per capita, bem como lá onde as vendas de armas de fogo estão sempre em contínuo crescimento. De facto, este número aumenta para 310 milhões de unidades, se usarmos as estimativas de Pew Research Institute.

No entanto, se pode bem considerar que o aumento de mass shootings nos EUA é directamente proporcional ao aumento das vendas de armas de fogo, que é por sua fez directamente condicionado pelo aumento da sensação de insegurança pessoal – segundo Gallup 60% dos estado-unidenses possuem armas por tale motivo – sobretudo nas escolas e nos lugares de trabalho, onde tiveram lugar 7 dos 10 mass shootings, desde 2013, segundo CNN. Townhall estimou em 2015 que 100 milhões armas foram vendidas desde que Presidente Obama tomou posse em 2009. Os dados de Janeiro de 2016, compilados por FactCheck.org, apresentam, contudo, um quadro mais seguro durante os seus dois mandatos: os homicídios reduziram-se em 13%, os crimes violentos em 16% e o controlo aos compradores de armas (Gun Buyer Checks) aumentou em 58%.

O debate relativamente a redução dos nívies de incidentes com armas de fogo é naturalmente político-legislativo, mas por vezes é excessivamente politizado, sobretudo graças aos fortes lobbies da NRA-National Rifle Association (uma organização que promove o porte de armas de fogo e defensora da 2a Emenda da Constituição) junto do Congresso dos EUA, no sentido prevenir o agravamento de Gun Buyer Checks em Universal Background Checks, através do seu Institute for Legislative Action (NRA-ILA), criado justamente para tal proposito, isto é, a defesa e a promoção daquela emenda. NRA, que pela sua natureza é conservadora, apoia a candidatura de Donald Trump, presumível candidato dos Republicanos (GOP-Grand Old Party) a presidência dos EUA.

Na sequência do ataque em Orlando, no passado dia 12 de Junho, perpetuado por um cidadão nascido a Nova York dos pais idos do Afganistão na década de 1980, o candidato GOP, num discurso sobre terrorismo e imigração, proferido a New Hampshire, não só voltou a reforçar a sua ideia de proibir a entrada de muçulmanos nos EUA, como também criticou a presumível candidata democrata, Hillary Clinton, e o Presidente Obama pela sua eventual fraqueza, aludindo que Hillary Clinton quereria desarmar os estado-unidenses e deixá-los a mercê dos terroristas, uma retórica que recorda bem a sua aproximação a NRA e a promoção da agenda conservadorismo no país. Para além do mais, Trump teria também acusado o Presidente chamando-lhe fraco, não brilhante e que teria qualcosa em mente em relação ao sucedido, implicações incendiárias típicas do candidato GOP que foram prontamente criticadas incluindo pelos líderes do seu próprio partido Republicano, por alegadamente ter querido insinuar uma directa responsabilidade do Presidente estado-unidense no ataque em Orlando.

Presidente Obama, em fim do seu segundo mandato, parece alvo fácil das críticas dos conservadores dos EUA, ja que incluindo o proprio John Mccain, candidato derrotado por ele nas eleições de 2008, veio a terreiro acusando o primeiro de ser um directo responsável pelos ataques em Orlando, graças, segundo afirmou, a falhada política de Obama de retirada dos militares estado-unidenses do Iraque. Ainda que não estimado por Trump – por quem Mccain não é um herói nacional dos EUA – o senador do Arizona parece usar aqui a táctica usada pelo próprio Trump, que consiste em imputar responsabilidades directas e por vezes até pessoais ao Presidente Obama(sobretudo quando EUA sofrem tais ataques perpetuados pelos cidadãos seus não-cristãos), já que, segundo se pensa, sabendo da dura batalha que deverá enfrentar para a sua re-eleição a cargo de senador que ocupa desde 1987, Mccain apela aos votos dos eleitores «zangados» com o status quo.

Tendo em conta as ideias que o Trump propõe para os EUA, subjacentes aos seus discursos, parece que ele não consegue obter um inequívoco e global apoio até da própria entourage republicana; políticos como Mitt Romney, candidato 2012 dos Republicanos, e outros, apelam até ao não-voto a Donald Trump. Hoje se pensa de igual modo a participação dos Libertarians encabeçados por Gary Johnson nas eleições de Novembro para fazer sombra a Trump, isto enquanto foi lançada uma plataforma «Anybody but Trump», uma coalição republicana que apela a «conscience clause» por formas que os delegados participantes na Convenção Republicana, em Julho, em Ohio, possam votar contra a nomination de Donald Trump como candidato republicano às eleições presidenciais deste ano.

Enquanto os republicanos seguem divididos, sobretudo depois das últimas intervenções do presumível candidato GOP na sequência do ataque em Orlando, que mereceram igualmente uma viva condenação da parte do próprio Presidente Obama, os democratas, com Bernie Sanders que dá sinais de retirada da corrida(na sequência da histórica e certa nomination de Hillary Clinton, e do encontro mantido com o Presidente Obama na Casa Branca, a 9 de Junho) seguem unidos e fortes: segundo sondagens da Bloomberg Politics, Clinton lidera as intenções de votos com 49%, contra 37% de Trump, e 9% de Johnson. Por agora, a retórica Trump anti-imigração, anti-muçulmanos e a sua relação com NRA parece andar contra-corrente da melhor democracia do mundo.

Por conseguinte, num país onde a indústria de produção e venda de armas e munições representa um impacto económico de 42,9 bilhões de dólares (dados da National Shooting Sports Foundation, NSSF), cujo custo total por incidentes fatais e não-fatais foram, em 2012, de 229 bilhões de dólares, 1,4% do PIB/EUA (dados Mother Jones), seria normal considerar-se um justo equilíbrio entre custos-benifícios, seja em termos económicos, mas sobretudo em termos da salvaguardia da integridade e segurança dos cidadãos dos EUA.

Dott. Issau Agostinho

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